Fôlego

Eu queria escrever sobre aquele horizonte de tirar o fôlego, e sobre o fôlego que me faltava ao subir os morros que desenham Ouro Preto. Descreveria com detalhes minuciosos as ruas de paralelepípedos e você caçoando do meu jeito de falar. E o sol, se pondo ou a pino, sempre lindo em contraste com as cores da cidade, sempre caloroso. Eu pararia nos mirantes por longos minutos, a beleza invadia meus olhos era tão confortável quanto tua presença sempre ali, ao meu lado.
Mas a estrada, ao entardecer, levou tudo embora, tão sagaz e ardilosa, a estrada se entrepôs entre nós, não sei em que momento, mas foi momento de dor.
Queria eu ter podido pegar aquele vôo marcado pras 19h40, eu teria visto Belo Horizonte do alto, sem distinguir os detalhes das ruas que percorri ao teu lado por tantos dias, sem ter no peito um labirinto indecifrável de uma despedida velada e sórdida. Mas foi assim que se fez. Perdi a hora, me perdi em mim, me perdi de você. Não encontrei mais seu olhar no meu, era tudo turvo e impessoal.
Eu queria poder escrever sobre como descobri um pedacinho de amor em você, mas falar sobre paixão já foi tão difícil que o amor me pareceu grandioso demais para nossos corpos ainda em reconhecimento. Incrível como não tive medo de te conhecer, de me envolver no teu abraço, de tocar seu corpo em cada detalhe, aliás, seus detalhes me cativaram como seu eu já estivesse ali há um bom tempo. Meu medo foi não poder ficar entre suas linhas de expressões, foi ter que ir embora do teu colo macio, ter que largar suas mãos firmes de dedos gelados, meu medo foi você não acreditar no calor, no nosso encontro.
Tudo que tínhamos ficou na estrada, mas longas 9 horas que percorri até São Paulo, até o meu caos reconfortante. Desde então não chorei, me afoguei em outras coisas pra não em deixar tomar conta da dor da despedida, tudo tão clichê, tudo tão nosso. O centro de São Paulo tem sido anestesiante, meu peito sente pouca coisa além de apertos repentinos, e minha mente não está me traindo, lembro de pouca coisa com detalhes vívidos, é como se tivesse sido há muito tempo atrás. você me disse tão poucas palavras e fiz delas textos intermináveis, em partes, indecifráveis. Ainda estou tentando decodificar.
Certamente o seu silêncio se perpetuará, até que não tenhamos mais nada a dizer, até que as palavras se desfaçam e voem com o vento do inverno, com a fumaça do meu cigarro, e o vazio será preenchido com o que pensamos em dizer, com os olhares perdidos nos horizontes, com as risadas pra outros amores.

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