Escolha

Soa bonito o cantarolar desprendido pela casa, ela sempre bota reparo. Me sinto livre quando esqueço, quando simplesmente esqueço, só estou ali, que seja, varrendo os pelos das gatas do piso de madeira.
Soa bonito o sino dos ventos na sacada, me lembra o esquecimento, e é morno, como me emaranhar no peito dela e ouvir, todas as vezes, do quanto ela gosta de me ter ali. É como acariciar bicho acuado: amansa o peito, mas também dói.
Quando ela segura minha mão, minha boca não seca, tudo se mantém em perfeita órbita, o percorrer do sangue, a saliva na boca, o silêncio e o barulho do mundo. E sei que escolhi estar ali, colando minha pele na pele macia dela, a traçar com meus dedos os caminhos dos seus desenhos, e escolhi ajudá-la a sentir amor na carne, a escorrer em companhia. Enquanto isso ela vem, sem saber, descontrolando o tempo que insisti em controlar e congelar, num silêncio irritante, me ajudando a desbravar meus próprios caminhos, ouvindo meus sussurros da madrugada.
E a peço, quase em prece, que fique e que eu fique, por querer estar, por ver a tempestade e escolher estar no porto ao invés do alto mar. 

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