Morada

Araraquara é a morada do sol, não sei se te contaram, mas te conto agora. Descobri isso mais ou menos na sua idade, e lá fiz minha morada depois de sair de casa. Lá é solo quente,tem no céu nuvens gordinhas, cheiro de laranja, gente boa e ruas enumeradas, você verá.O tempo aqui passa sem cautela: quase uma década que estive por lá, dez meses desde que nos despedimos, ou que calamos.
Não sei nada sobre o que se escreveu por cima das nossas histórias controversas e me pego relendo-as pra não perder a certeza tão sutil e frágil de que o que escrevemos com amor, ainda que tenhamos deixado as reticências no lugar do ponto final.
Às vezes dói como se fosse a primeira dor, outrora como se fosse a última, não sei o que se faz mais adequado aos vinte e sete anos, eu olho pra trás e vejo meus olhos fixados aos teus, olho pra frente e vejo meus olhos indomáveis.
Claramente sinto saudades, mas saudade pode ser colo, não mais coleção, meu peito inflou demais pra um corpo tão cansado. Eu quero sopro de vida, de vida inteira. Penso em tudo que você me diz em silêncio, bem que você disse que seria ausência o que restaria, eu não acreditei. É, meu bem, eu não acreditei.
Queria que você pudesse me entregar num ritmo de paz as palavras que pedi, queria te falar da rua cinco, a rua mais arborizada que já vi, de certo, os fractais esverdeados. Queria a simplicidade das almas que se sentem num encontro bonito e sincero, sem medo, sem sombras, só luz.
Aos poucos o tempo se faz menos cronológico e mais cíclico, e o acaso se torna aprendizado num presente vívido, e as cordas do meu violão viraram o solo fértil pras notas que meu canto florescem em dó maior, sem pena.

Comentários

Postagens mais visitadas