Não esqueça, mas também não lembra

Quando me disseram que eu estava sendo errada contigo, meus ossos se partiram em pequenos pedaços. Quando eu percebi que teus olhos não brilhavam mais ao me ver, os meus ficaram pequenos, menores do que eu imaginei que poderiam se tornar. Quando nada além de suposições e meus sonhos inquietos passaram a ser nossa única comunicação, eu calei, ainda que repetindo palavras sem parar, mundo a fora. Quando eu deixei de sentir medo de te perder e eu entendi que era porque você já havia partido, eu me parti ao meio. Quando eu senti raiva pra endurecer e esfriar meu peito, eu parei de tomar o chá de hortelã e me sentar perto da sacada no chão da sala. Quando percebi que o tempo estava passando ele já havia passado, ouvi poucas palavras, claras e limpas: tudo bem.
Mas quando eu vi que você poderia amar uma outra mulher e viver outro mundo, hoje ou amanhã, e isso não me despertou desespero, eu entendi que realmente te amo aqui dentro do meu peito desordenado e profundo. Quando eu decidi que independente do que você pensa ou sente por mim hoje eu só vou te amar, seja na calmaria de uma canção ou na eternização captada de uma fotografia não posada, eu entendi que isso me faria me amar de novo.
Me amar e te amar é nos ver e nos entender pra além do mundo que a gente criou, e isso não quer dizer desmanchá-lo, está tudo lá, pairando em alguma fenda atemporal, e pode ficar lá sem que lembrar seja dor latente.
E eu te ouvi, tempos depois: "não esqueça, mas também não lembra", é isso, eu não quero me esquecer, nenhum pedacinho de mim, que já me vi partindo demais, mas também não me deixo mais ficar lembrando como se só ali eu estivesse viva o suficiente.
Me permito ser sem você a maior parte do tempo e por vezes eu te deixo vir, eu te abraço sem ímpeto, apenas um abraço morno e amável, faço um carinho no teu rosto e sorrio pra você, aqueço meu peito porque esfriar demais nunca foi pra mim.
Ainda choro, em qualquer lugar, não há vergonha em chorar, nunca houve vergonha nesses olhos marejados. Escorro, me enxugo e deixo as coisas belas da vida me tomarem pra si.
Ouço músicas bonitas, e penso que você as acharia tão belas quanto eu mas acalmo na certeza de que há músicas belas por aí também a embalar seus dias, seu sono, seu entorno.
Ainda sinto saudades, e não há porque não senti-la, mas eu fecho os olhos e imagino uma bolinha de energia fosca saindo do meu peito, eu a pego com as mãos vejo ela sendo transmutada num roxo translúcido e se regenerando, aí ponho tudo de volta, e sinto aquela paz de quem descansa depois da dor aguda. Respiração, inspiração e passos largos como me pede a cidade de São Paulo.
Não vou negar que ainda tenho esperança de que um dia possamos nos encontrar na calmaria da certeza de que nos quisemos num bem maior, enlaçadas pelo amor que deseja e fundi ou pelo amor fluido de dois corações que se encontraram nessa jornada e aprenderam e cresceram juntos, de alguma forma.
Eu sigo desejando que você se ame mais do que tudo e que não ache que se amar e se encontrar ao deitar no silêncio não vai, hora ou outra, doer um bocado, ou que errar consigo e com os outros não fará parte. Fará!
Sigo com os pés -ainda- no chão vendo você angariar voo,e eu digo na brisa morna da primavera: Voa passarinha! Voa passarinha!
Não tenha mais medo da chuva, ela vem, lava, leva o que tem que levar e seca! E ela vem guerreira pelas mãos de Oyá!
E ainda que você não lembre, não esquece que tu semeou nessa terra aqui, que é fértil, e tem tanta coisa que ainda vai brotar e florescer, coisa forte, árvore que dará sombra e frutos fartos e eu só devo te agradecer que pelo que eu ainda vou aprender quando eu puder, madura, colher.

"É duro pra caramba essa distância
  mas é bom saber que você se fez rainha
  e que o afastamento de dois corpos 
  contribuiu e muito pra isso
  doeu, mas foi."
                                    M.C

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