Comadre
Hoje era o dia de arrumar os potinhos, procurar as tampas perdidas, jogar fora aqueles que estão incompletos e tudo que eu consigo é ficar olhando pela janela, ver os pingos de chuva quase em câmera lenta, pensar em coisas desconexas como minhas súbita vontade de pular de paraquedas e a fuga de olhar minha conta bancária.
Era uma manhã bonita ontem quando abri a janela do apartamento no terceiro andar em Santa Teresa, ainda que as lágrimas inchassem meu rosto como todos os dias, havia um cheio de esperança que entrou e me contaminou, e eu deixei inflar meu peito.
Eu disse à colecionadora de meias que eu duvidava do amor dela por mim e no segundo seguinte eu me arrependi e percebi que ouvir isso e ainda assim estar do meu lado, dormindo de mãos dadas comigo era prova irrefutável de seu amor. Ela sabe que eu estou ferida dos pés aos fios de cabelo, e deve ser por isso que tive o impulso de cortá-los tão assimetricamente. Sem saber o bem que me faria me emprestou um livro sobre velhas sábias e eu o devorei no caminho tortuoso do Rio de Janeiro pra São Paulo, chorei em quase todos os capítulos e acreditei nas palavras profetizadas de que a sabedoria e a intuição estão dentro de mim, ainda que eu não consiga deixá-las emergir nesse momento minguante.
O livro falava sobre a etimologia da palavra comadre, algo semelhante a "eu sou sua mãe, e ao mesmo tempo você é minha mãe". É uma palavra usada para descrever a relação íntima entre mulheres que cuidam uma da outra, que dão ouvidos e ensinam uma a outra, de uma forma na qual a alma está sempre incluída, ás vezes ela, a alma, é o assunto da conversa, e ás vezes é com ela diretamente que se fala. As comadres se empenham para viver sob o abrigo uma da outra, e esse é um esforço abençoado"
Não tem erro nem medo entre nós, eu coleciono potinhos sem tampas e você meias bonitas, em nossas próprias sabedoria, a lareira queima nossas dores e criamos nossa própria cura, deixando que o mar leve o que não precisa mais ficar, dormindo na mesma cama no chão enquanto a outra cama esfria vazia. O amor acaricia nossas feridas de moças que estão aprendendo a caminhar com as próprias pernas. O grito, o sussurro, as risadas fora de hora e as horas impostas. É, meu bem, a cidade aqui é cinza e eu não gosto do seu olhar cínico, mas me derreto quando você pega minha mão e me põe no caminho certo.
Era uma manhã bonita ontem quando abri a janela do apartamento no terceiro andar em Santa Teresa, ainda que as lágrimas inchassem meu rosto como todos os dias, havia um cheio de esperança que entrou e me contaminou, e eu deixei inflar meu peito.
Eu disse à colecionadora de meias que eu duvidava do amor dela por mim e no segundo seguinte eu me arrependi e percebi que ouvir isso e ainda assim estar do meu lado, dormindo de mãos dadas comigo era prova irrefutável de seu amor. Ela sabe que eu estou ferida dos pés aos fios de cabelo, e deve ser por isso que tive o impulso de cortá-los tão assimetricamente. Sem saber o bem que me faria me emprestou um livro sobre velhas sábias e eu o devorei no caminho tortuoso do Rio de Janeiro pra São Paulo, chorei em quase todos os capítulos e acreditei nas palavras profetizadas de que a sabedoria e a intuição estão dentro de mim, ainda que eu não consiga deixá-las emergir nesse momento minguante.
O livro falava sobre a etimologia da palavra comadre, algo semelhante a "eu sou sua mãe, e ao mesmo tempo você é minha mãe". É uma palavra usada para descrever a relação íntima entre mulheres que cuidam uma da outra, que dão ouvidos e ensinam uma a outra, de uma forma na qual a alma está sempre incluída, ás vezes ela, a alma, é o assunto da conversa, e ás vezes é com ela diretamente que se fala. As comadres se empenham para viver sob o abrigo uma da outra, e esse é um esforço abençoado"
Não tem erro nem medo entre nós, eu coleciono potinhos sem tampas e você meias bonitas, em nossas próprias sabedoria, a lareira queima nossas dores e criamos nossa própria cura, deixando que o mar leve o que não precisa mais ficar, dormindo na mesma cama no chão enquanto a outra cama esfria vazia. O amor acaricia nossas feridas de moças que estão aprendendo a caminhar com as próprias pernas. O grito, o sussurro, as risadas fora de hora e as horas impostas. É, meu bem, a cidade aqui é cinza e eu não gosto do seu olhar cínico, mas me derreto quando você pega minha mão e me põe no caminho certo.
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