Cautela

Eu te diria pra não olhar pra trás, pois é sempre muito duro virar o rosto com os olhos marejados, é desgastante demais deixar inchar e não poder escorrer. O eco em todos os espaços, os espaços entre os dedos de suas mãos que nunca parecem bom o suficiente para não suarem, o vento que continua balançando a janela, e a janela que ainda está com a fechadura quebrada, certamente. 
Mas ainda que você me escutasse, aos dezoito anos é preciso olhar pra trás, assim como aos vinte e sete, e esse será sempre o enredo: os números que carregamos. Ainda que eu carregue uma paleta de cores com misturas e borrões, ainda que eu carregue as velharias da minha avó, as pétalas de uma flor seca que uma garota me deu uma vez, os pares de meia desencontrados, a sacola de remédios, os poemas incompletos, ainda assim, uma década se interpõe nesse espaço que não deixa as mãos secarem, as lágrimas escorrerem livremente, o silêncio incomodo ser sonoro e o abraço ser preenchido por corpos que bombeiam sangue quente e corações aflitos pela retidão de um mundo que não deixa frestas nem mesmo para os feixes de luz. Mas ainda nesse mundo vedado, remendado por suas imposições, ainda assim, eu encontrei um lugar bonito, com uma cadeira feita do tronco de uma árvore de frente pra outra, e ali algum par de olhos se perdem na imensidão da árvore que ainda habita aquele lugar como uma soberana. Eu te diria pra ir até lá, sentar e observá-la por alguns longos minutos, que permitisse sentir o desconforto de estar sozinha olhando para as raízes, caule e copa de uma árvore em meio a tantas outras coisas importantes pra fazer, um instante suspenso de cautela no meio do caos. 
E ter ficado ali, comendo algumas frutas, sentada e tentando esquecer meu medo de insetos, ignorando os horários que eu precisava seguir para bater o ponto no trabalho, foi o que me fez perceber que ter cautela é um singelo gesto de amor, e que parte do processo de ser cauteloso é ser paciente, é procurar os feixes de luz ainda que em lugares vedados, é não esquecer da dor que não nos aflige em contraponto a imensidão que aflinge nossos amores, é não ignorar que ignorar pode ser absolvição à uns e penitência à outros.

Cautela
substantivo feminino
  1. 1.precaução para evitar dano, transtorno ou perigo; cuidado, prudência.




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