A árvore centenária

Algo toca o alto da minha cabeça, é a percepção e talvez alguns sonhos. Algo toca uma ferida do meu coração, é uma música que não conhecia, ela vem entrando e lavando a ausência.
Essa manhã eu comi abacaxi aos pés de uma árvore centenária num parque escondido na metrópole, e enquanto o sumo da fruta escorria por entre meus dedos eu a olhava como uma criança percebendo a imensidão do desconhecido. Meus pés doíam pelo tanto que andei pelo asfalto quente da cidade fria, caminhar era condição, ainda que doesse tudo. Olhando em silêncio eu lembrei de quando eu falava, e falava muito, e falava alto e falava pela boca e pelos olhos fartos! Me calei, e tenho medo de falar, ainda que eu tenha tanta coisa pra contar, tantas poesias pra recitar, tantas perguntas pra fazer, ainda assim, fiquei no ainda. Observo de longe, meio de canto, os olhos que um dia foram meus confidentes e sinto uma profunda inconsistência, vejo um lugar onde pés nenhum poderiam se firmar tranquilamente. Há uma barreira invisível que se entrepôs entre nós e o abraço assegurado pela docilidade e hoje eu sinto medo de me aproximar, e as palavras não saem para além da escrita indireta e sorrateira.
Um sorriso debochado me toma no ponto de ônibus quando percebo que eu tenho mais medo das palavras que você me ofereceria hoje (ou a ausência delas) do que saudade, e olha que a saudade é maior do que as raízes da árvore centenária, e talvez por isso eu tenha deixado minhas palavras lá, na terra que alimenta, supre e sustenta aquela fortaleza.

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